Especialistas defendem união entre ciência e comunidades para evitar colapso das áreas úmidas
Campo Grande (MS), 26 de março de 2026 — O futuro do Pantanal e das espécies migratórias esteve no centro das discussões nesta quinta-feira (26), durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS). Com o tema “Dos corredores bioculturais a iniciativas de ciência cidadã: fortalecendo a conectividade ecológica para a conservação de espécies migratórias”, o encontro destacou a importância de manter a “conectividade” do sistema Paraguai–Paraná — ou seja, a integração entre rios, áreas alagadas, espécies e pessoas.
O painel foi moderado por Sebastián Abad Jara do Programa de Territórios da AIDA – Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente e abertura foi conduzida por Rafaela Nicola, diretora executiva da Wetlands International Brasil e diretora técnico-científica da Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal, que destacou a necessidade de articulação política e institucional para garantir a preservação em larga escala.

“A conservação de grandes áreas e paisagens, especialmente quando falamos em conectividade ecológica e integridade dos ecossistemas, passa necessariamente por soluções políticas e por uma articulação entre agendas nacionais e internacionais. Isso envolve acordos, salvaguardas e mecanismos institucionais, mas também o diálogo entre diferentes formas de conhecimento”, afirmou.
A pesquisadora Cátia Nunes explicou de forma didática o conceito de corredores ecológicos, fundamentais para o equilíbrio do Pantanal. Segundo ela, o bioma funciona como um sistema interligado, guiado pelo pulso natural das cheias. “Não estamos falando apenas de água, mas de fluxo de energia, sedimentos e espécies. A conectividade permite que os animais se desloquem e mantenham seus ciclos de vida”, explicou.
Ela alertou ainda para as ameaças que colocam esse equilíbrio em risco, como hidrovias, barragens e estradas. “Sem conectividade hidrológica e ecológica, e sem governança participativa, não há áreas úmidas, não há aves migratórias e não há futuro”, reforçou.

Román Baigún, coordenador do Programa de Conservação das Áreas Úmidas Alto Andinas da Wetlands International LAC (Argentina), trouxe o exemplo do Censo Internacional de Aves Aquáticas (International Waterbird Census – IWC), feito com dados dos observadores de aves voluntários e profissionais. O IWC é um caso claro de ciência cidadã, segundo ele que acrescentou: “Há uma série de intercâmbios que precisam existir entre todos os atores para que justamente essa migração de conhecimento, essa migração dos saberes de cada grupo, possa ser efetivo na conservação das áreas úmidas e das espécies”.
Representante do Comitê Popular do Rio Paraguai, Isidoro Salomão destacou a importância da mobilização social. “Precisamos fazer com que o povo se sinta parte desse processo. A sociedade tem um papel fundamental em garantir os direitos da natureza e, com isso, proteger também as espécies migratórias”, disse.
Quando a população vira parte da ciência
O painel também destacou o papel da chamada “ciência cidadã”, que envolve a participação da população na coleta de dados e no monitoramento ambiental como estratégia para ampliar o conhecimento e fortalecer a conservação.

A fala da liderança indígena Gilberto Pires, do povo Kadiwéu, trouxe o olhar dos territórios tradicionais para o debate. “Se juntarmos o conhecimento científico com o conhecimento cultural, conseguimos avançar. O Pantanal foi por muito tempo esquecido, e hoje estamos aqui falando do nosso bioma. Isso é muito importante”, afirmou.
Organizado por Wetlands International Brasil, Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal e Wetlands International América Latina e Caribe, em parceria com a AIDA, o encontro reforçou que proteger o Pantanal depende de um esforço conjunto — que une ciência, políticas públicas e, principalmente, as pessoas que vivem no território.
Com o painel ficou evidente que, diante das crescentes pressões sobre o bioma, integrar diferentes saberes não é apenas uma alternativa, mas um caminho necessário para garantir o futuro das áreas úmidas.
