Painel sobre o fogo destaca tecnologias de monitoramento no Pantanal e dá protagonismo a brigadistas indígenas durante COP15
Integração entre estudos, conhecimento tradicional e tecnologia foi apontada como caminho para compreender a dinâmica do fogo e implementar soluções mais eficazes no Bioma
Campo Grande (MS), 25 de março de 2026 — A construção de soluções mais eficazes para o enfrentamento do fogo no Pantanal passa, necessariamente, pela integração entre ciência e conhecimento tradicional. Essa foi uma das principais mensagens do painel dedicado ao tema durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), realizado nesta terça-feira (25), em Campo Grande.
Com o tema “Monitoramento integrado e gestão do fogo para espécies migratórias e conservação de áreas úmidas no sistema Paraguai–Paraná”, o painel reuniu especialistas, representantes da sociedade civil e nomes com trajetória consolidada na defesa do bioma. Em comum, os participantes relataram as estratégias integradas para prevenção, manejo e resposta aos incêndios, cada vez mais intensos na região.

Nesse contexto, iniciativas lideradas pela Wetlands International Brasil e pela Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal ganharam destaque, especialmente o Sifau (Sistema Integrado de Fogo em Áreas Úmidas). A experiência foi apresentada como um exemplo concreto de atuação que já vem promovendo mudanças no nível regional, com foco em vigilância, manejo integrado e fortalecimento da governança.
A diretora-geral da Mupan e coordenadora de Políticas da Wetlands International Brasil, Áurea Garcia, apresentou resultados do Sifau, sistema que, há três anos, auxilia na tomada de decisão em áreas do Pantanal. “São informações coletadas via satélite, com fluxo contínuo de dados, que permitem análise de cenários, emissão de alertas aos proprietários e monitoramento no pós-fogo. É uma ferramenta que hoje também é utilizada pelo Governo de Mato Grosso do Sul para notificações e orientação preventiva em áreas de risco, com previsibilidade de até seis dias”, explicou.
Durante o painel, Ângelo Rabelo, do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), apresentou o Projeto Pantera, que atua na análise e monitoramento do bioma. Ele também destacou o uso de tecnologias como drones, que ampliam a capacidade de resposta e complementam o trabalho realizado em campo.
A bióloga Daniella França da SOS Pantanal ressaltou a importância do manejo integrado do fogo aliado ao engajamento comunitário, reforçando que as soluções mais eficazes passam pelo envolvimento direto das populações locais.
Planejamento a longo prazo

Além das ações práticas, os participantes destacaram que o enfrentamento do fogo no Pantanal exige uma abordagem que vá além da resposta emergencial, incorporando planejamento de longo prazo, cooperação regional e o reconhecimento do papel das populações tradicionais na gestão do território.
Nesse sentido, o cacique da Aldeia Tomázia do Território Indígena Kadiwéu e brigadista Eudes Abicho compartilhou experiências adotadas após os grandes incêndios de 2020.
“Estamos realizando queimas com base em estudos de mapeamento dentro do território. Também trabalhamos a prevenção com a comunidade e nas escolas. Seguimos utilizando práticas dos nossos antepassados, como o uso de cavalos, mas agora com mais planejamento — não esperamos mais a seca. Estamos antecipando ações e criando áreas de escape para animais, aves e também para a comunidade, que sofreu muito com problemas respiratórios em 2020. Todas essas tecnologias, como drones, o Projeto Pantera e o Sifau, trouxeram mais segurança para o nosso trabalho no território. Elas ajudam a chegar mais rápido e a combater o fogo com mais eficiência”, relatou.
O painel reforçou que o desafio não é apenas conter os incêndios, mas construir caminhos sustentáveis para o desenvolvimento do Pantanal, conciliando conservação ambiental, produção e qualidade de vida para as comunidades que vivem no bioma.