60 anos do Censo Internacional de Aves Aquáticas
Todos os anos, desde 1967, dezenas de milhares de pessoas entram em suas áreas úmidas locais — de lagos congelados a planícies intertidais tropicais — para participar do Censo Internacional de Aves Aquáticas (International Waterbird Census – IWC). De áreas costeiras do norte da Europa a estuários tropicais da Ásia e da África, voluntários e profissionais se unem a esse esforço global de ciência cidadã dedicado a acompanhar a saúde das populações de aves aquáticas e das áreas úmidas das quais elas dependem.
Um esforço global com impacto duradouro
O que começou como um levantamento regional há 60 anos tornou-se uma das mais importantes fontes de conhecimento do mundo sobre aves aquáticas e áreas úmidas. As informações coletadas pelo IWC orientam ações concretas de conservação — protegendo áreas úmidas, subsidiando políticas internacionais e contribuindo para o cuidado de milhões de aves aquáticas em todo o mundo. Os objetivos do censo são:
- Estimar o tamanho das populações de aves aquáticas e suas tendências
- Identificar e monitorar áreas prioritárias para aves aquáticas
- Apoiar a conservação de áreas úmidas e o planejamento de sua gestão
- Informar acordos globais e regionais e políticas nacionais com dados sobre o status e as tendências das aves aquáticas
- Incentivar a participação cidadã na conservação de aves aquáticas e áreas úmidas

Por que contar aves aquáticas?
As aves aquáticas são altamente visíveis e ocorrem em uma ampla variedade de áreas úmidas ao redor do mundo. Além disso, são carismáticas e desempenham papéis importantes no funcionamento dos ecossistemas. Já no início do século XX, reconheceu-se que essas aves só poderiam ser conservadas e manejadas de forma sustentável por meio da cooperação internacional. Ao mesmo tempo, as aves aquáticas despertam grande interesse entre observadores amadores e são relativamente fáceis de contar. Isso as torna ideais para o monitoramento de longo prazo: levantamentos de baixo custo, realizados ano após ano, em grande parte por meio de uma rede de voluntários.
O que aprendemos: 60 anos de tendências
- Esforços de conservação dão resultado: A proteção e o manejo ajudaram algumas espécies a se recuperar. Diversas espécies de gansos na Europa aumentaram suas populações graças a ações coordenadas de conservação e ao manejo sustentável da caça.
- Mas muitas estão em declínio: Em especial, as aves limícolas apresentam tendências preocupantes de queda, refletindo as pressões sobre áreas úmidas, campos naturais e habitats de tundra ao longo de suas rotas migratórias.
- As aves aquáticas estão respondendo a um mundo em transformação: Globalmente, a distribuição das aves aquáticas muda em função da temperatura nas zonas temperadas e do regime de chuvas nos trópicos. Até 2050, prevê-se que as áreas adequadas de invernada na Europa se estendam para o nordeste, alcançando o Báltico e o sul da Rússia, enquanto as áreas na África podem se tornar cada vez mais fragmentadas.
Ao detectar declínios em espécies caçadas e acompanhar os impactos das mudanças climáticas e da influenza aviária, os dados do IWC são essenciais para orientar políticas e ações de conservação de aves aquáticas.
Impacto na conservação
Os dados do IWC são utilizados diretamente em diversos marcos de conservação:
- Convenção de Ramsar sobre Áreas Úmidas: As contagens locais fornecem evidências para a identificação de Áreas Úmidas de Importância Internacional, e as estimativas populacionais derivadas das contagens servem de base para a definição dos limites de 1% para a aplicação do Critério 6 da Convenção de Ramsar. O IWC contribuiu para a designação de 956 Sítios Ramsar, cobrindo 1,5 milhão de km² — uma área equivalente ao tamanho da Mongólia.
- Acordo sobre a Conservação das Aves Aquáticas Migratórias Afro-Eurasiáticas (AEWA): Contribui para a classificação das populações de aves aquáticas na Tabela 1 do Acordo, que determina as regras para sua conservação e manejo. Além disso, serve de base para muitos dos indicadores de sucesso do Plano Estratégico do AEWA.
- Parceria da Rota Migratória do Leste Asiático–Australásia (EAAFP): Identificação de áreas de importância internacional para aves aquáticas migratórias, designadas como Sítios da Rede EAAF — atualmente quase 160 áreas em 19 países.
- Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS): Monitoramento do status das aves aquáticas migratórias e de seus habitats.
- Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB): Contribuição para as metas de conservação e uso sustentável da biodiversidade no âmbito do Marco Global da Biodiversidade Kunming–Montreal.
- Áreas Importantes para Aves (IBAs): 2.701 IBAs foram identificadas parcialmente com base nas contagens do IWC, cobrindo 1,75 milhão de km² — aproximadamente o tamanho da Líbia ou do México.
- Zonas de Proteção Especial (SPAs): 2.721 SPAs na União Europeia foram identificadas com base em dados do IWC, cobrindo 418 mil km² — uma área maior que a Alemanha.
- Sítios do Patrimônio Mundial: Monitoramento do status das aves aquáticas e de seus habitats.
Impulsionando a ciência e a ação
O IWC tornou-se um dos conjuntos de dados mais robustos para a ciência da biodiversidade:
- Tendências em rotas migratórias: Índices multiespécies gerados a partir dos dados do IWC retratam as mudanças gerais nas populações de aves aquáticas e fornecem indicadores-chave para a Diretiva Aves da União Europeia, o AEWA e a EAAFP.
- Estimativas Populacionais de Aves Aquáticas (WPE): As contagens do IWC formam a base dessas estimativas, que orientam a identificação de áreas-chave para aves aquáticas no âmbito da Convenção de Ramsar, do AEWA, da EAAFP e da Diretiva Aves da UE.
- Listas Vermelhas: As tendências populacionais e os dados de distribuição do IWC são uma fonte central para as avaliações da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN para aves aquáticas.
- Mudanças climáticas: Análises das contagens do IWC demonstraram mudanças na distribuição de inverno das aves aquáticas e subsidiam o planejamento de adaptação às mudanças climáticas em escala de rotas migratórias, garantindo que a rede de áreas protegidas possa acomodar essas mudanças.
- Áreas protegidas: Os dados do IWC demonstraram como áreas protegidas bem manejadas podem estabilizar populações, enquanto áreas mal geridas frequentemente falham em evitar declínios.
- Priorização de áreas para conservação e manejo: Os dados do IWC foram fundamentais para identificar e priorizar áreas de importância internacional para investimentos de governos e agências de desenvolvimento, voltados à elaboração e implementação de planos de manejo com múltiplos atores.
- Combate a doenças zoonóticas: Desde os primeiros surtos de influenza aviária altamente patogênica em aves silvestres, em 2005, os dados do IWC têm fornecido informações valiosas para aprimorar a compreensão sobre a disseminação dos vírus entre aves domésticas, seres humanos e aves silvestres, em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisadores.
Ajude-nos a continuar monitorando as áreas úmidas do mundo
A força do IWC está em sua continuidade. Ao repetir os mesmos esforços coordenados ano após ano, ele constrói uma série histórica de longo prazo que permite ir além de flutuações de curto prazo e compreender tendências reais das populações. O IWC depende de pessoas como você — que se importam com o nosso mundo compartilhado e desejam deixá-lo saudável para as futuras gerações de pessoas e aves. Sua doação nos ajuda a:
- Capacitar e apoiar voluntários em todo o mundo
- Manter o fluxo de dados essenciais para orientar ações de proteção
- Conectar pessoas às suas áreas úmidas locais — e umas às outras