Brigada Indígena de Incêndio Kadiwéu – Guardiões de um Pantanal em Chamas
Por Joeri Borst – Gerente de Marca e Conteúdo da Wetlands International
Silvo Xavier
“Estávamos vigiando o local por onde o fogo vinha. E quando percebemos, o fogo já tinha passado à nossa frente e ficamos encurralados. Mas com a ajuda do nosso equipamento conseguimos sair. Tudo o que aconteceu naquele lugar me deu muito medo.”
– Silvo Xavier, Chefe da Brigada 1
Uma terra entre a água e o fogo
No remoto sudoeste do Brasil está situado o Território Indígena Kadiwéu. Com uma extensão de 538 mil hectares, essa terra abriga cerca de 1.400 pessoas, cujos ancestrais vivem ali há séculos, acompanhando os ritmos das cheias e secas que definem o Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo.
Durante a estação chuvosa, os rios transbordam e a paisagem se transforma em um mosaico reluzente de lagoas, ilhas de floresta e campos alagados. Mas quando as chuvas cessam, o Pantanal seca rapidamente. A terra rachada substitui os campos inundados, e a vegetação, antes exuberante, torna-se quebradiça. Nos últimos anos, períodos de seca mais longos e temperaturas mais elevadas, impulsionados pelas mudanças climáticas, tornaram esse ciclo, antes previsível, muito mais perigoso.
Todos os anos, incêndios, muitas vezes iniciados fora dos territórios indígenas, são levados pelos ventos secos até as terras Kadiwéu. O que começa como colunas distantes de fumaça pode rapidamente se transformar em paredes de fogo, consumindo tudo pelo caminho.
Eudes de Souza
Eudes de Souza
“Nosso território é muito grande e de difícil acesso. Muitas vezes deixamos o carro e caminhamos de 10 a 15 quilômetros até chegar no foco de incêndio.”
– Eudes de Souza, chefe de brigada e Cacique da Aldeia Tomázia
Os brigadistas da Tomázia
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No coração do território Kadiwéu está Aldeia Tomázia, uma pequena aldeia que abriga a Brigada 3. Quando os incêndios de 2024 se espalharam pelo Pantanal, Tomázia se tornou uma base de apoio para mais de 40 brigadistas de outras localidades. Eles dormiam em barracas, compartilhavam alimentos e trabalhavam dia e noite. Mas havia um problema: não existiam instalações adequadas. Não havia banheiros, chuveiros ou abastecimento de água. A escola local abriu suas portas para garantir o mínimo de estrutura.
Essa experiência marcou uma virada. Com recursos viabilizados pela Wetlands International e pela Cycling 4 Climate, a brigada construiu galpões para armazenamento de equipamentos e iniciou a implantação de infraestrutura de saneamento e abastecimento de água. Hoje, Tomázia está mais preparada. Quando o apoio externo é necessário, eles podem receber reforços com dignidade, uma pequena, mas essencial, vitória.

Enquanto isso, as operações são coordenadas a partir do escritório do PrevFogo/IBAMA em Corumbá, com apoio do SIFAU – Sistema de Inteligência do Fogo em Áreas Úmidas, desenvolvido pela Wetlands International em colaboração com parceiros. Combinando dados de satélite com o conhecimento local, o sistema representa uma integração avançada entre ciência, tecnologia e prática territorial. Ele apoia o uso racional do fogo em áreas úmidas, indicando para onde as brigadas devem ir a seguir, uma ferramenta crucial quando cada minuto conta.
Thainan Bornato
“Moro em Corumbá, a capital do Pantanal, em uma casa de frente para o rio Paraguai. De lá, acompanhamos os incêndios junto com tempestades de fuligem que muitas vezes cobriam nossa casa. Não conseguíamos lavar roupas, nem respirar direito. Em 2024, vimos helicópteros captando água do rio para combater o fogo, mas, mesmo assim, nos sentíamos impotentes diante da dimensão dos incêndios. Meses de céu cinza foram devastadores. Nunca vou esquecer o choque de ver o céu azul novamente depois da primeira chuva. São experiências que não queremos reviver no Pantanal.”
– Thainan Bornato, coordenador do PrevFogo/IBAMA
Saberes ancestrais, desafios contemporâneos
Em abril de 2025, a brigada participou de uma oficina sobre “cultura do fogo”, conduzida pelo PrevFogo/IBAMA. Não foi um treinamento comum, mas um encontro entre saberes tradicionais e a ciência moderna do fogo.
Moradores da comunidade se reuniram para mapear áreas destinadas às queimas prescritas — uma prática utilizada há gerações pelos povos indígenas para manejar a vegetação e prevenir grandes incêndios. Em setembro, eles retornaram para comparar esses mapas com imagens de satélite, sobrepondo os mapas falados (metodologia ETNO) com dados digitais. Juntos, discutiram o que funcionou, o que não funcionou e por quê.
Essas conversas foram francas e profundamente enraizadas na experiência cotidiana. Não se tratava apenas de prevenir incêndios, mas de retomar o protagonismo sobre o cuidado com a terra e sobre como as futuras gerações irão herdá-la.
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A história da Brigada Indígena Kadiwéu é uma história de resiliência, coragem e profunda conexão com o território. Esses brigadistas não estão apenas defendendo suas casas — estão protegendo um dos ecossistemas mais singulares do planeta.
À medida que o Pantanal enfrenta secas mais longas e incêndios mais intensos, o trabalho dessas brigadas se torna cada vez mais essencial. Com melhor infraestrutura, tecnologias mais inteligentes e forte envolvimento comunitário, o povo Kadiwéu mostra que as soluções para a crise climática podem nascer a partir do território.
Sua luta não é apenas por seu território.
É pelo futuro do Pantanal — e pelo futuro de todos nós.