COP30: Wetlands International Brasil e Mupan fortalecem agenda de prevenção de incêndios com foco no Pantanal e no conhecimento integrado
Entre os dias 17 e 18 de novembro, durante a COP30, em Belém (PA), a Wetlands International Brasil e a Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal participaram e coorganizaram dois eventos estratégicos sobre prevenção de incêndios florestais, reforçando a importância de uma abordagem integrada que una ciência, tecnologia e saberes tradicionais.
Os encontros foram impulsionados pela Chamada à Ação para o Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais, apresentada pelo governo brasileiro durante a Cúpula de Líderes da COP30, que estimulou organizações, pesquisadores, governos e povos indígenas a fortalecerem iniciativas conjuntas para lidar com incêndios cada vez mais extremos e recorrentes. A Wetlands International Brasil e a Mupan se somaram como signatárias da Declaração Conjunta de Apoio à Chamada à Ação para o Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais, reafirmando o compromisso com políticas baseadas em ciência, conhecimento tradicional e fortalecimento de povos indígenas e comunidades locais.
Nesse contexto, os eventos reuniram organizações da sociedade civil, lideranças indígenas, pesquisadores e representantes do governo, incluindo, no dia 18, Christian Berlinck, Coordenador-Geral de Manejo Integrado do Fogo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), convidado pelas organizações para discutir soluções práticas, cooperação internacional e políticas públicas voltadas à prevenção e ao manejo integrado do fogo.
A perspectiva do Pantanal no centro do debate amazônico
No dia 17, a Wetlands International Brasil e a Mupan participaram do painel “Ação coletiva para a prevenção de incêndios florestais na Amazônia”, realizado na Estação Amazônia Sempre, no Museu Emílio Goeldi.
Embora o debate estivesse focado principalmente na Amazônia, as organizações trouxeram ao centro da discussão a realidade do Pantanal, destacando como a dinâmica climática que conecta os dois biomas intensifica as secas e agrava o comportamento do fogo nas áreas úmidas pantaneiras. Ao mesmo tempo, reforçaram que estratégias de prevenção e resposta só são efetivas quando pensadas de forma integrada entre regiões, já que o monitoramento e o manejo do fogo precisam considerar essa interdependência.
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A diretora executiva da Wetlands International Brasil e diretora técnico-científica da Mupan, Rafaela Nicola, destacou que compreender a ecologia do fogo no Pantanal é fundamental para separar o uso tradicional do fogo, historicamente parte da gestão do território, do fogo descontrolado intensificado pelas mudanças climáticas.
“Um dos grandes desafios hoje é compreender e diferenciar o uso tradicional do fogo, que é ancestral, do fogo que causa grandes desastres. Para isso, precisamos unir conhecimento tradicional, técnico, científico e prática local, para construir soluções duradouras e sólidas”, afirmou Rafaela.
Durante sua participação, Rafaela também apresentou o SIFAU – Sistema de Inteligência do Fogo em Áreas Úmidas, uma ferramenta desenvolvida em parceria entre a Wetlands Internacional e o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA) do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD) coordenado pelo Núcleo de Estudos do Fogo em Áreas Úmidas (NEFAU) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), que integra dados satelitais, alertas e informações de campo para apoiar a gestão integrada do fogo no Pantanal.
O SIFAU é um dos produtos do Programa Corredor Azul (PCA), programa que tem como objetivo central proteger a saúde e a conectividade do sistema Paraguai-Paraná de Áreas Úmidas. O SIFAU permite identificar áreas de maior risco de incêndio, apoiar decisões de prevenção e orientar ações de manejo integrado do fogo junto a governos, brigadas comunitárias e organizações locais.
Prevenção de Incêndios Florestais Tropicais
No dia 18, a Wetlands International Brasil e a Mupan foram coorganizadoras do evento internacional “Prevenção de Incêndios Florestais Tropicais: liderança local, ambição nacional e financiamento para paisagens resilientes ao fogo”, realizado em parceria com a Tropenbos International e diversos parceiros globais.
O encontro reuniu lideranças indígenas, representantes de governos, organizações da sociedade civil e pesquisadores para discutir estratégias concretas de prevenção de incêndios nos trópicos, a partir de três eixos principais:
- Liderança local: fortalecimento do protagonismo indígena e comunitário, garantia de direitos territoriais e apoio às brigadas locais.
- Ambição nacional: integração do manejo integrado do fogo em políticas públicas, como NDCs e estratégias climáticas.
- Financiamento inteligente: descentralização de recursos e fortalecimento de parcerias para investir em prevenção — e não apenas em resposta a desastres.
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O diretor da Tropenbos International, Joost van Montfort, destacou a importância da ação coletiva:
“O fogo é um grande problema e está ficando ainda maior, amplificado pelas mudanças climáticas. Precisamos agir juntos, somar experiências e construir soluções de forma colaborativa. Dessa forma teremos um impacto muito maior.”
Já o CEO da Wetlands International, Coenraad Krijger, reforçou que o debate vai além das florestas:
“Não se trata apenas de incêndios florestais. Áreas úmidas também queimam. São incêndios em ecossistemas, em paisagens naturais, e precisamos olhar para isso de forma integrada.”
A presença indígena teve papel central nos debates. O líder Asháninka Ángel Pedro Valerio, do Peru, compartilhou a experiência do povo Asháninka com a estratégia PAAMARI, baseada no manejo integrado do fogo a partir do território, reforçando a necessidade de ampliar a cooperação internacional para fortalecer iniciativas lideradas por povos indígenas.
Pantanal: conhecimento, tecnologia e prevenção
A participação da Wetlands International Brasil e da Mupan nos dois eventos destacou o papel do Pantanal no debate global sobre incêndios extremos, especialmente por se tratar de um bioma de áreas úmidas, com dinâmicas próprias e historicamente negligenciadas nas políticas de fogo.
Ao apresentar o SIFAU e o trabalho com comunidades locais e brigadas, as organizações reforçaram que prevenir custa menos, preserva mais e protege melhor a vida, a biodiversidade e os modos de vida tradicionais.
“É lógico imaginar que a prevenção custa menos, mantém a natureza e a qualidade de vida, e é muito mais eficaz do que apenas o combate ao fogo”, reforçou Rafaela Nicola durante o evento.
A participação na COP30 fortalece o posicionamento da Wetlands International Brasil e da Mupan como referências na interface entre conservação de áreas úmidas, gestão integrada do fogo, políticas públicas e saberes tradicionais.