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Restaurando áreas úmidas com uma Abordagem Holística da Paisagem 

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Texto por Elton Mudyazvivi

As áreas úmidas estão entre os ecossistemas mais produtivos do planeta. Elas regulam os fluxos de água, armazenam carbono, sustentam a biodiversidade, enriquecem culturas e mantêm comunidades e economias. Sem esses serviços ecossistêmicos, não conseguimos sobreviver. São também habitats dinâmicos, moldados pela água que os atravessa, conectando ecossistemas e sistemas sociais. 

Em todo o mundo, as áreas úmidas estão ameaçadas por uma série de problemas — do desenvolvimento predatório à expansão agrícola e às mudanças climáticas. E áreas úmidas degradadas impactam negativamente os ecossistemas e as comunidades que delas dependem. Um rio represado impede o fluxo de sedimentos a jusante, afetando seu curso e as planícies de inundação. Um manguezal em declínio expõe comunidades costeiras às ameaças de inundações e elevação do nível do mar. Uma turfeira seca torna-se um barril de pólvora, espalhando incêndios para ecossistemas vizinhos e emitindo grandes quantidades de carbono. 

Na verdade, muitos dos graves problemas enfrentados pelo mundo podem ser atribuídos à paisagens degradadas. Assim como as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a insegurança alimentar devem ser enfrentadas em sua origem, a restauração e a conservação das paisagens precisam estar no centro da solução. 

Ainda assim, com muita frequência, os esforços de conservação tratam os ecossistemas, incluindo as áreas úmidas, como bolsões isolados de natureza, em vez de partes vitais de paisagens maiores, vivas e interconectadas. 

Na Wetlands International, acreditamos que conservar e restaurar áreas úmidas deve caminhar lado a lado com a gestão da paisagem mais ampla, abrangendo toda a bacia hidrográfica e as comunidades que dependem desses habitats. Por isso, adotamos a Abordagem Holística da Paisagem, orientada pelo Marco dos 4 Retornos (4 Returns Framework). Trata-se de um modelo prático que nos ajuda a desenhar ações de restauração que beneficiem simultaneamente a natureza, as pessoas e as economias. 

O Marco dos 4 Retornos fornece a base para colocar a restauração de paisagens em prática. Ele propõe quatro tipos de retornos que paisagens saudáveis podem gerar ao longo do tempo: 

  1. Retorno Natural – Biodiversidade, solos e hidrologia restaurados 
  2. Retorno Social – Comunidades mais fortes, meios de vida, equidade e resiliência 
  3. Retorno Financeiro – Rendas sustentáveis e oportunidades de investimento verde 
  4. Retorno Inspiracional – Esperança restaurada, conexão com o território e propósito 

Esses retornos são alcançados por meio de processos colaborativos que se estendem por décadas, e não por ciclos curtos e fragmentados de projetos. 

A abordagem holística reúne diferentes atores para desenvolver um entendimento comum, construir uma visão e um plano para a paisagem, agir de forma coletiva e realizar monitoramento contínuo. Ela se ancora na noção de que, no longo prazo, a abordagem integrada garante que os resultados ecológicos, sociais e econômicos se reforcem mutuamente. 

Por meio do nosso programa Wetlands 4 Resilience (W4R), apoiado pela Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Sida), estamos transformando essa abordagem em ação em paisagens diversas — do delta de Sundarbans, em Bangladesh, às áreas úmidas de Ziway-Shalla, na Etiópia, e aos manguezais da Guiné-Bissau. Com base nessas experiências, o programa W4R irá desenvolver o Modelo de Abordagem W4R — um conjunto de orientações e ferramentas para aplicar a abordagem integrada de paisagem em ecossistemas de áreas úmidas, apresentando boas práticas e resultados concretos alcançados nos territórios de atuação do W4R. 

As áreas úmidas atravessam fronteiras — ecológicas e institucionais. Facilitamos parcerias entre órgãos ambientais, comunidades locais, agricultores, governos locais e empresas, alinhando seus objetivos para proteger e restaurar recursos compartilhados. 

Trabalhamos com parceiros para desenvolver planos de investimento em paisagens — roteiros integrados que combinam restauração ecológica, uso sustentável da terra e governança inclusiva. Essas propostas influenciam decisões de investimento local, ajudam a atrair recursos externos e orientam a colaboração de longo prazo.  

Cada paisagem é diferente. Incorporamos o aprendizado adaptativo, fundamentado na ciência, em todos os nossos projetos, fortalecendo capacidades e compartilhando lições entre países para acelerar o impacto. 

Uma abordagem integrada de paisagem para áreas úmidas não é simples. As áreas úmidas estão no encontro de muitas demandas concorrentes — agricultura, crescimento urbano, biodiversidade, lazer e segurança hídrica. Desequilíbrios de poder podem excluir grupos vulneráveis. E a restauração leva tempo, às vezes até uma geração, para mostrar resultados plenos. Mas isso também nos dá tempo para monitorar nossas intervenções, aprender com as evidências emergentes e ajustar nossas ações. 

A complexidade é exatamente o motivo pelo qual a abordagem de paisagem é tão importante. Ela nos permite colocar todos à mesa, tornar o equilíbrio entre custo e benefício transparente e cocriar soluções duradouras. A Wetlands International enfatiza a inclusão e a equidade em cada paisagem, garantindo que mulheres, povos indígenas e comunidades locais sejam parceiros plenos na construção do futuro de suas terras e águas. 

Ao adotar a Abordagem Holística da Paisagem, a Wetlands International está ajudando comunidades e governos a desenhar caminhos para paisagens produtivas, resilientes e saudáveis. 

Porque, quando restauramos áreas úmidas, não estamos apenas curando a natureza. Estamos restaurando a esperança.