Marca Godidiko amplia circulação da arte e dos saberes Kadiwéu
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Com peças produzidas por artistas de quatro aldeias, iniciativa fortalece a produção tradicional Kadiwéu e cria novas possibilidades de acesso a mercados
A cerâmica, os grafismos e os saberes tradicionais Kadiwéu ganharam uma nova vitrine com o lançamento da Godidiko, durante o Festival de Inverno de Bonito 2026 (FIB). Criada a partir do trabalho das artistas do Território, a marca amplia as possibilidades de circulação dessa produção e aproxima as peças de novos mercados.
A iniciativa de criação da marca é resultado de uma construção realizada ao longo dos anos entre as comunidades Kadiwéu, a Wetlands International Brasil e a Mupan – Mulheres e Lideranças pelas Áreas Úmidas, em ações voltadas à valorização dos modos de vida, dos conhecimentos tradicionais e à criação de oportunidades de geração de renda no território.

Após oito meses de capacitação em produção cerâmica e acesso ao mercado, as artistas passaram a transformar argila, pigmentos naturais e grafismos tradicionais em peças que carregam histórias e referências do povo Kadiwéu. Parte dessa produção foi apresentada no estande da Economia Criativa do Festival, com vasos, pratos, tigelas, bolsas, camisetas e outros objetos que mostraram ao público diferentes expressões da cultura Kadiwéu.
Para Lilian Pereira, coordenadora do componente Modos de Vida da Wetlands International Brasil e da Mupan, a criação da marca representa o resultado de uma caminhada iniciada em 2015. “Desde quando chegamos ao território, temos atuado na promoção territorial, tanto na gestão ambiental quanto na arte. A gente chegou ao território por meio da cerâmica Kadiwéu e hoje ver a marca se concretizando é um prazer. Eu agradeço ao povo Kadiwéu, que acreditou na nossa parceria e nos chamou para essa construção coletiva. E esse é um resultado muito positivo de todos esses anos que caminhamos juntos.”
A artista da aldeia Tomázia, Neilce da Silva participou pela primeira vez de uma exposição. “Na nossa aldeia estamos retomando o trabalho de fazer cerâmica porque algumas mulheres não faziam mais, e desde o ano passado estamos praticando novamente.”
O processo começa muito antes da peça chegar ao público. A argila é retirada do próprio território, preparada pelas artesãs e transformada por meio de técnicas tradicionais. Elementos encontrados na natureza também são utilizados na pigmentação e no acabamento. “São peças únicas, feitas à mão, tudo natural. Desde a coleta da argila até a queima e a tintura, é tudo da natureza. Nada é comprado”, explica Neilce.

Grafismos que carregam identidade
Os grafismos Kadiwéu ocupam um lugar central na produção apresentada pela Godidiko. Presentes nas cerâmicas, tecidos, bolsas e camisetas, eles fazem parte de um sistema de expressão próprio do povo e estão relacionados à sua história e identidade.
A estilista Kadiwéu Benilda Vergílio, que participou do lançamento, chama atenção para a importância de manter vivos diferentes conhecimentos que fazem parte da cultura do povo. “É muito importante essa revitalização cultural, não só da arte, mas também dessa preocupação com relação à língua do povo Kadiwéu. Ela é única no Brasil.”
Para Benilda, ouvir as próprias mulheres falando sobre a retomada da produção também representa uma possibilidade de olhar novamente para conhecimentos que precisam continuar sendo praticados. “Ouvir a fala da Neilce faz você começar a sonhar novamente, porque muitas coisas estamos perdendo pelo caminho. Nosso grafismo tem dono. A gente consegue identificar eles. E o que temos que fazer, enquanto cidadãos e também parte dessas gestões, é tentar dar visibilidade para esse povo.”
Novos caminhos para uma produção tradicional
Além de dar visibilidade ao trabalho das artistas, a Godidiko nasce com o propósito de ampliar as possibilidades de comercialização da produção Kadiwéu e aproximar as mulheres de novos mercados.

O Kadiwéu Gilberto Pires, Coordenador técnico da Funai em Bonito, lembrou que a busca por reconhecimento do trabalho das artesãs é antiga. “Há muitos anos nós estamos lutando, buscando esses espaços, buscando parcerias, e é um sonho ver o reconhecimento do trabalho tradicional milenar do povo Kadiwéu, porque muitas vezes as artesãs vinham para vender e tinham seu trabalho desvalorizado. Então eu me orgulho de fazer parte dessa conquista juntamente com as mulheres.”
A criação da Godidiko é resultado das ações de Qualificação Produtiva, Design Estratégico e Acesso ao Mercado, com capacitações orientadas pelo design Fábio Lapuente, voltadas ao aperfeiçoamento da produção, à apresentação das peças e à organização dos produtos para ampliar as possibilidades de acesso a diferentes mercados. A iniciativa também responde a demandas apresentadas pelas próprias artistas durante a elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), que apontou a necessidade de fortalecer a produção de artesanato no território.
A ação é desenvolvida pela Wetlands International Brasil e pela Mupan – Mulheres e Lideranças pelas Áreas Úmidas, organizações que atuam junto ao povo Kadiwéu desde 2015. Desde 2017, esse trabalho também integra ações do Programa Corredor Azul.
Conheça a Godidiko e confira o catálogo da marca
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