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Áreas úmidas da Bacia do Prata, aliadas naturais para enfrentar a mudança climática

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Os rios Paraguai e Paraná fazem parte da Bacia do Prata, que abriga o corredor de áreas úmidas fluviais mais extenso do mundo e responde por cerca de 70% do PIB dos cinco países que compartilham este território de riqueza incalculável. 

Nesse contexto, a Wetlands International lançou durante a COP30, em Belém, a publicação Áreas úmidas fluviais da Bacia do Prata e mudanças climáticas: aliadas essenciais para a adaptação e mitigação, desenvolvida em colaboração com seus escritórios no Brasil e na Argentina. O estudo apresenta evidências inéditas sobre o papel desses ecossistemas como infraestruturas naturais fundamentais para enfrentar os impactos das mudanças climáticas na região. 

O lançamento integrou a agenda oficial do evento e foi apresentado ao público e a autoridades no painel “Desafios da escassez hídrica e a integração da variável climática no Índice de Segurança Hídrica”. 

O painel contou com a participação de Áurea Garcia, diretora geral da Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal e coordenadora de políticas da Wetlands International Brasil e Gastón Fulquet, coordenador regional do Programa Corredor Azul da Fundación Humedales/Wetlands International América Latina, além de autoridades e especialistas como, Giuseppe Vieira, Secretário Nacional de Segurança Hídrica do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; Verônica Rios, Diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA); Prof. Dr. Stefan Uhlenbrook, Diretor de Hidrologia, Água e Criosfera da Organização Meteorológica Mundial (WMO). 

O debate abordou os impactos das mudanças climáticas sobre o ciclo hidrológico e a necessidade de incorporar a variável climática em indicadores de segurança hídrica mais sensíveis às realidades territoriais. 

Áreas úmidas como aliadas climáticas 

As áreas úmidas da Bacia do Prata são aliadas naturais para mitigar e nos adaptarmos aos efeitos da mudança climática, que já impactam a região por meio de eventos meteorológicos extremos cada vez mais severos e frequentes. 

Graças à sua capacidade de capturar e armazenar carbono, esses ecossistemas ajudam a reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, contribuindo diretamente para a mitigação das mudanças climáticas. Além disso, funcionam como uma barreira natural contra secas, inundações e eventos climáticos extremos, sendo essenciais para a adaptação climática.  

Apesar de seu papel insubstituível como fonte de vida e biodiversidade, esses ecossistemas perderam até 22% de sua superfície em nível global desde os anos 1970 devido à ação humana, percentual que na América Latina chega a 59%. 

A publicação lançada pela Wetlands International chega em um momento estratégico, fortalecendo o debate sobre soluções baseadas na natureza e subsidiando formuladores de políticas públicas, gestores e tomadores de decisão em toda a região da Bacia do Prata. Conservar este extenso corredor fluvial, o último de fluxo livre do mundo, é fundamental para garantir saúde ambiental e econômica na região. 

Filtros naturais 

As áreas úmidas fornecem 40% de todas as funções socioecológicas oferecidas pelos ecossistemas do planeta, gerando inúmeros benefícios: melhoram a qualidade do ar, purificam a água, abrigam biodiversidade e oferecem paisagens de beleza única, abrindo portas para a geração natural de empregos e riqueza.  

Ações possíveis para mitigar e nos adaptar aos efeitos das mudanças climáticas a partir das áreas úmidas. 

Nas áreas úmidas, a água é o elemento dominante. “O exemplo mais claro para dimensionar as contribuições desses ecossistemas é sua capacidade de purificar naturalmente a água transportada pelos rios. A conectividade hídrica entre os rios e as áreas úmidas de suas planícies de inundação é essencial para melhorar a qualidade da água”, explicou Gastón Fulquet, coordenador regional do Programa Corredor Azul da Fundação Humedales/Wetlands International.  

Essa água de qualidade é a base de diversos usos produtivos regionais, como pesca, agricultura, pecuária e silvicultura, além de ser um insumo central para processos industriais e extrativos.  

Impactos da mudança climática 

A publicação demonstra como as áreas úmidas do corredor Paraguai–Paraná acumulam o excesso de água em períodos de cheia e regulam seu escoamento nos períodos secos, diminuindo os impactos de secas prolongadas e ajudando inclusive a reduzir a propagação de incêndios em períodos críticos. 

Eventos de seca severa, incêndios em áreas úmidas, perda de qualidade da água e fragmentação de habitats vêm se intensificando em toda a região, evidenciando a urgência de estratégias de gestão integrada, multinível e transfronteiriça. 

Responsabilidades compartilhadas 

As áreas úmidas seguem recebendo menos atenção que outros ecossistemas, apesar de serem as que mais rapidamente vêm sendo destruídas. A publicação reforça que a governança desses territórios exige cooperação entre governos, sociedade civil, comunidades locais e instituições científicas ao longo de toda a bacia.

Crédito: Juan Menoni 

No Brasil, a Wetlands International tem contribuído para o fortalecimento de sistemas de alerta precoce e adaptação climática, especialmente em regiões como o Pantanal, além do desenvolvimento do Sistema de Inteligência do Fogo em Áreas Úmidas (SIFAU) em parceria com universidades e órgãos ambientais. 

Enfrentar a crise climática e hídrica na Bacia do Prata exige reconhecer as áreas úmidas como infraestruturas naturais estratégicas e integrá-las às políticas públicas de adaptação, mitigação e segurança hídrica”, destacou Áurea Garcia, representando a Wetlands International Brasil e Mupan durante o painel na COP30. 

A COP30 marcou um ponto de inflexão para recolocar as áreas úmidas no centro da agenda climática internacional. Para as mais de 100 milhões de pessoas que vivem na região da Bacia do Prata, esses ecossistemas representam não apenas biodiversidade, mas também segurança hídrica, resiliência climática, cultura e sustento.

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  • Áreas úmidas fluviais da Bacia do Prata e mudanças climáticas: Aliados essenciais para a adaptação e mitigação