Pantanal: construindo um futuro resiliente
Texto escrito por Joeri Borst – Gerente de Marca e Conteúdo Wetlands International
Estendendo-se pelo Brasil, Bolívia e Paraguai, o Pantanal é a maior área úmida tropical do mundo — um mosaico vivo de águas, campos, florestas e vida silvestre, que sustenta tanto a natureza quanto as pessoas. Mas hoje, esse ecossistema extraordinário se encontra em uma encruzilhada. Com as mudanças climáticas e a intensificação das pressões humanas, seu equilíbrio delicado está cada vez mais ameaçado.

Os desafios de um clima em transformação
Nos últimos anos, o Pantanal tem enfrentado um de seus desafios mais urgentes: a escassez de água. Secas prolongadas, alterações nos padrões de chuva e o aumento das temperaturas vêm desorganizando os ciclos hidrológicos que estruturam toda a dinâmica da região. Rios e áreas úmidas, antes pulsantes de vida, estão secando mais cedo e mais rapidamente. Essa escassez ameaça não apenas a biodiversidade local, mas também os modos de vida e as culturas das populações que vivem no território.
“Água é vida no Pantanal. Quando a água falta, tudo muda: os peixes, o gado, o ritmo de vida das pessoas.”
– Angelo Rabelo, fundador e presidente do IHP – Instituto Homem Pantaneiro
Além da seca, o fogo se tornou outra ameaça significativa. Anos de políticas de supressão total do fogo, o chamado “fogo zero”, levaram ao acúmulo de biomassa seca. Quando a seca e o calor se intensificam, esse material acumulado alimenta grandes incêndios, como os que devastaram a região em 2019, 2020 e 2021.
Segundo Fábio Padilha Bolzan, Superintendente de Mitigação e Adaptação Climática da SEMADESC – Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação: “A política de fogo zero não deu certo, ela explodiu em 2019, 2020 e 2021. Nosso desafio agora é aprender a conviver com o fogo novamente, trazer de volta o fogo bom, aquele que sustenta as funções ecológicas.”


Um chamado à integração e à ação coletiva
Proteger o Pantanal não é um desafio de um único setor. Exige colaboração entre governos, proprietários rurais, comunidades locais, povos indígenas e sociedade civil. Há um reconhecimento crescente de que as leis e políticas públicas precisam não apenas proteger a biodiversidade, mas também dialogar com a forma como as pessoas vivem e trabalham na região.
“Nosso maior desafio é garantir que as leis ambientais estejam conectadas com o modo de vida das pessoas e apoiem o desenvolvimento econômico sustentável.”
– Leonardo Tostes Palma, gerente de Unidades de Conservação do IMASUL
Essa visão depende da integração entre políticas públicas, pesquisa científica e saberes locais.
“Precisamos encontrar um ponto de convergência onde governo, setor privado e sociedade civil possam atuar juntos pela conservação do Pantanal, garantindo também meios de vida sustentáveis e preservando a cultura pantaneira, tão forte e enraizada.”

A visão para 2050
O futuro do Pantanal em 2050 é imaginado como um território mais resiliente, equilibrado e pautado na responsabilidade compartilhada. Um território em que as soluções baseadas na natureza estejam no centro da atividade econômica. Onde a pecuária, pilar cultural e econômico da região, seja praticada de forma sustentável e reconhecida por seu papel na manutenção dos campos naturais e da biodiversidade. Onde as áreas protegidas sejam fortalecidas não apenas ambientalmente, mas também economicamente, gerando benefícios concretos para as populações locais.
“Imagino que em 2050 as soluções baseadas na natureza sejam mais comuns, a pecuária seja mais valorizada e a cultura pantaneira seja realmente reconhecida. Só valorizando essas três dimensões, natureza, economia e cultura, é que podemos pensar de verdade no futuro.” – Angelo Rabelo

Nesse futuro, as comunidades do Pantanal estarão mais conectadas, com acesso à educação, energia e comunicação, inclusive em áreas mais remotas. Os povos indígenas e comunidades tradicionais continuarão fortalecidos, preservando práticas culturais que há séculos coexistem de forma harmoniosa com o ambiente.
Uma rede restaurada de rios e áreas úmidas voltará a pulsar pela paisagem, garantindo água de qualidade, abundância de peixes e vida silvestre saudável — das menores aves até a emblemática onça-pintada.

Construindo o caminho adiante
Alcançar esse futuro exige uma mudança profunda na forma como as pessoas se relacionam com o Pantanal. Transformação de comportamento, educação e conscientização são tão importantes quanto políticas públicas e ciência.
“Precisamos ensinar as pessoas a viver com o Pantanal, e não contra ele. Muitos chegam de fora e tentam impor formas de viver que não dialogam com a paisagem. O Pantanal nos ensina sobre adaptação — é assim que ele sobrevive.”
– Leonardo Tostes Palma
Para Bolzan, o caminho está na mudança de mentalidade:
“Tudo depende do comportamento humano, do quanto as pessoas valorizam esse bioma. Não é só o governo que precisa agir. Todo mundo precisa entender o seu papel. É assim que a gente transforma sonho em realidade.”
O Pantanal sempre foi um lugar de adaptação. Seu povo, sua fauna e suas águas atravessaram transformações buscando equilíbrio. Se esse equilíbrio puder ser restaurado e fortalecido, o Pantanal de 2050 não apenas sobreviverá — ele será um modelo vivo de harmonia entre pessoas e natureza.
