Projeto piloto avalia aspectos da queimada controlada na pecuária pantaneira

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Estudo deve resultar em publicações sobre o manejo integrado do fogo e, futuramente, em treinamentos de boas práticas para proprietários e trabalhadores rurais. 

O fogo que destrói pode ser também aquele que ensina. Sem desconsiderar costumes seculares usados na pecuária pantaneira, pesquisadores de seis instituições – UFMS, Wetlands International Brasil, Prevfogo/IBAMA, Corpo de Bombeiros e SOS Pantanal – promoveram uma queimada controlada para análise científica. O experimento foi realizado em duas escalas: a primeira de um hectare e a segunda, maior, com 50 hectares. Ambas na fazenda Vai Quem Quer, localizada em Corumbá,  na sub-região do Pantanal do Abobral. 

Na área menor, de um hectare, o trabalho buscou compreender os efeitos do fogo nos ecossistemas e também no carbono. Já na área maior, de 50 hectares, a experiência foi utilizada para aferir a eficiência, o custo com logística e as estratégias necessárias para a realização de queimada controlada com fins agropastoris. 

O fogo é um traço cultural tanto do homem pantaneiro quanto do próprio ecossistema, contudo seu uso indiscriminado resulta em impactos socioecológicos negativos significativos,” explica Fábio Bolzan, coordenador de projetos da Wetlands International Brasil, entidade que é parceira nos estudos da UFMS, por acreditar que investir em políticas de manejo do fogo é um caminho para proteger as áreas úmidas e, consequentemente, prevenir desastres como o ocorrido no Pantanal nos anos de 2019 e 2020.  

“Somos uma entidade voltada à conservação de áreas úmidas. Razão que justifica o envolvimento da Wetlands International nesta pesquisa que pode gerar conhecimento de boas práticas, como o uso da ferramenta fogo de maneira inteligente e segura, através do Plano de Manejo Integrado do Fogo. Com isso, podemos incrementar a produtividade no campo, ao mesmo tempo em que mantemos a integridade ecológica do bioma pantaneiro”, complementa Bolzan.   

Os dados coletados fornecerão subsídios para diferentes produtos, que têm como objetivo principal, orientar boas práticas pecuárias com foco na integridade ecológica do bioma, bem como na produtividade das pastagens nativas. Apoiado pelo Programa Corredor Azul, da Wetlands International, os produtos envolvem uma publicação em revista científica, uma cartilha prática sobre o uso racional do fogo a ser disponibilizada à população pantaneira, treinamentos de prevenção e combate a incêndios e queimadas e o desenvolvimento de um sistema baseado em informações estratégicas para o suporte a tomada de decisão por parte dos produtores rurais. 

Queima controlada 

Ao todo, oito propriedades rurais estão inseridas dentro deste experimento de queimada controlada. 

“O projeto piloto tem por objetivo entender e avaliar o impacto do uso do fogo em áreas de pastagens dentro do Pantanal. Esse é um trabalho que está integrado ao ‘Estudo de longa duração dos efeitos do fogo ao longo do gradiente de inundação no Pantanal’, desenvolvido pelo Programa Ecológico de Longa Duração (PELD-Fogo), da UFMS, em que atuo como coordenador”, detalha Geraldo Alves Damasceno Júnior, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 

Damasceno enfatiza que os estudos podem gerar benefícios bioeconômicos, como a alimentação do gado a partir da renovação de pastagem com espécies nativas. “Muitas áreas do Pantanal são manejadas com pasto nativo, recurso natural. É a flora que está disponível para o consumo do gado. Porém, é preciso que se tenha um manejo, pois com o tempo o capim tende a ficar muito fibroso, é difícil do rebanho consumir. Então, o fazendeiro normalmente faz uso da queima, uma prática antiga, para que o pasto renove. É a rebrota ou germinação de sementes que torna a pastagem mais palatável para os animais. Isso evita que se plante espécies como a braquiária, por exemplo”, explica o pesquisador da UFMS.  

Conforme o coordenador de projetos da Wetlands International Brasil, “os dados da pesquisa permitirão entender a dinâmica da regeneração natural do pasto nativo, do custo e logística para uso do manejo integrado com o fogo, entre outros aspectos ecossistêmicos”. 

Para que tudo transcorresse com segurança, o trabalho desenvolvido pelas instituições foi realizado com autorização do Imasul (Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul).  

“Todo o experimento segue normas de segurança para evitar riscos de incêndios. Contamos com uma equipe do Prevfogo/Ibama e do Corpo de Bombeiros. A Wetlands International Brasil deu suporte logístico com aquisição de rádios para comunicação e aluguel de maquinário para montagem dos aceiros dentro da área de queima controlada. Também tivemos suporte de dois kits pick up, cada um com um tambor de 400 litros e bomba de pressão, cedidos pelo Corpo de Bombeiros e pela SOS Pantanal”, revela Damasceno. 

Além de todo o aparato técnico, ainda houve o cuidado na preparação da área maior para a queima controlada. “Fizemos aceiros de até nove metros de largura dentro dessa área, sempre levando em consideração conhecimentos como direção do fogo, umidade e segurança”, diz Fábio Bolzan. 

A queimada controlada é diferente da prescrita.  A primeira é realizada em áreas pastoris, visando o cuidado com o rebanho e gestão rural. Já a queimada prescrita visa a redução de biomassa do material combustível em área de vegetação nativa a fim de evitar incêndios florestais. 

PELD Fogo 

O projeto tem promovido tanto ações de queima controlada em pastagem quanto análise de áreas de vegetação atingidas por incêndios, com o propósito de responder questões importantes sobre o impacto do fogo no Pantanal. 

Aprovado pelo CNPq em 2020, o PELD Fogo consiste em duas vertentes. A primeira é onde a pesquisa avalia o efeito do fogo em diferentes épocas do ano: no início da seca, no meio da estiagem e na transição para a fase de inundação.  

Na segunda vertente, são observadas imagens via satélite para ver quais áreas foram queimadas no passado, por volta de 10 a 20 anos atrás. Neste caso, o intuito é observar como a vegetação e os animais se organizaram nessas áreas com histórico diferente de fogo.  

Programa Corredor Azul  

Criado em 2018, pela Wetlands International, o Programa Corredor Azul (PCA) foi implementado com o objetivo de proteger a biodiversidade e a conectividade em um território transfronteiriço, que abrange três grandes áreas úmidas do sistema Paraná-Paraguai, são elas: Pantanal, os Esteros de Iberá e o Delta do Paraná.   

Estendendo por 3.400 km desde o Pantanal brasileiro, passando pela Bolívia e Paraguai, até desembocar no Delta do Paraná, na Argentina, o Sistema Paraná-Paraguai (Corredor Azul) é um dos últimos exemplos do mundo de um grande sistema de rios de fluxo livre e contínuo. Já o nome do programa é uma alusão ao grande volume de água que circula dentro dessas importantes áreas úmidas da América do Sul. 

Wetlands International  

A Wetlands International é uma organização global, não governamental, sem fins lucrativos, que tem por objetivo conservar e restaurar as áreas úmidas para a natureza e as pessoas. Ao longo dos mais de 80 anos de história, a instituição tem cumprido um papel singular na conservação desses ecossistemas vitais para o planeta e atuado em defesa das áreas úmidas e seus valores nas convenções internacionais no cumprimento da sua missão de preservar e restaurar as áreas úmidas, seus recursos e biodiversidade.

A organização é associada à Convenção de Áreas Úmidas de Importância Internacional (Convenção Ramsar). Seu escritório para a Latino América e Caribe (LAC) está sediado na Argentina. Já no Brasil, a Wetlands International tem seu escritório nacional em Campo Grande/MS.