A ação ambiciosa de clima e biodiversidade exige metas reais para as áreas úmidas

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Metas são importantes. Elas focam a nossa atenção. Elas nos permitem responsabilizar as pessoas que as criam. Os apelos para combater as mudanças climáticas antes eram vagos, até o mundo concordar com a meta de diminuir o aquecimento em 1,5 graus, conforme foi confirmado na recente conferência climática de Glasgow. Da mesma forma, o desejo de interromper o desmatamento entrou em foco com o prazo de Glasgow de 2030.

Jane Madgwick, CEO, Wetlands International

No entanto, como ficam as áreas úmidas? As turfeiras, os manguezais, os rios, os pântanos salgados e as planícies de maré alagadas de todo o mundo são importantes. Elas retêm – ou perdem se danificadas – – mais carbono que todas árvores juntas. Eles abrigam – ou extinguem se perdidos – mais  biodiversidade do que as florestas.

As turfeiras danificadas pelas drenagens são responsáveis ​​por  mais do que 5%  das emissões globais de carbono, e os manguezais intactos contêm quatro vezes mais carbono por hectare do que as florestas tropicais. No entanto, esses tesouros insubstituíveis foram deixados de lado nos compromissos assumidos em Glasgow. E eles se sairão pouco melhor na conferência sobre biodiversidade da ONU em abril em Kunming, China, que tem uma meta admirável, a de conservar 30% do planeta para a natureza, porém pouco diz sobre o que deve ser conservado e onde.

É surpreendente que não tenhamos metas globais para as áreas úmidas. Ninguém é responsabilizado pela extinção de criaturas nesses domínios aquáticos ou pela lixiviação de carbono de seus ecossistemas. Isso precisa mudar. Pois sem sua proteção e restauração, o mundo tem poucas chances de alcançar seus objetivos climáticos ou de biodiversidade. E o sofrimento humano seguirá aumentando, através de enchentes, incêndios e secas.

No Dia Mundial das Áreas Úmidas, devemos atender ao apelo por metas globais para proteger e restaurar esses ecossistemas de Cinderela.

A protecção existente das áreas úmidas ainda é fraca. Seu único defensor em acordos ambientais internacionais, a Convenção de Ramsar, de 51 anos, é assinada por 172 governos, mas não tem força. E a degradação e a perda de áreas úmidas interiores e costeiras continuaram independentemente. Apenas 2,5 milhões de quilômetros quadrados de áreas úmidas são reconhecidos como áreas úmidas de importância internacional, enquanto as áreas úmidas do mundo cobrem uma área cinco vezes maior –  um décimo segundo da superfície terrestre do mundo , dos pântanos congelados da Sibéria ao Pantanal povoado de jacarés no coração da América do Sul.

O mundo pode ter perdido metade de suas florestas, não obstante, o mundo  perdeu cerca de 87% de suas áreas úmidas. Drenos e barragens, barreiras costeiras e canais causaram muito mais danos à natureza e à sua capacidade de armazenar carbono do que as motosserras.

Precisamos virar a maré! Juntamente com outras organizações internacionais, a Wetlands International elaborou metas propostas que acreditamos que deveriam fazer parte de acordos sob a Convenção da Biodiversidade, de futuras “soluções baseadas na natureza” para as mudanças climáticas e da atual década da ONU para restauração de ecossistemas. Nossos alvos incluem:

  • Todas as turfeiras não drenadas restantes do mundo devem ser mantidas intactas e, até 2030, pelo menos 100.000 quilômetros quadrados devem ser re-umedecidos, bloqueando os drenos para retenção de carbono – com cinco vezes mais restaurados até 2050.
  • Com metade dos manguezais costeiros do mundo perdidos, principalmente para a aquicultura e infraestrutura costeira, a restauração de 20% desse “carbono azul” até 2030.
  • Todos os rios de fluxo livre restantes do mundo, como o Irrawaddy e o Salween no sudeste da Ásia, devem ser protegidos de barragens, diques, mineração de areia e outros impedimentos.
  • As planícies de maré do mundo devem ser aumentadas em pelo menos 10% até 2030, removendo os paredões e restaurando o suprimento de lodo dos rios represados. Isso representaria apenas metade do que foi perdido desde 1990.
  • Ação para priorizar pontos de parada ao longo das grandes rotas internacionais de aves aquáticas migratórias, para proteger pelo menos metade dos 7.000 locais criticamente importantes identificados pelos ornitólogos até 2030.

É claro que proteger e restaurar as áreas úmidas pode ser mais difícil do que, no caso, as florestas. Água flúi. Uma barragem ou uma fábrica poluente a montante de um rio pode destruir lagos, planícies aluviais, pântanos, pesqueiros e deltas até o oceano. Muitos desses rios cruzam fronteiras internacionais.

É por isso que as metas internacionais e a responsabilidade são tão vitais. Mas também porque os benefícios da ação – para o clima, a biodiversidade, a subsistência humana e a proteção do ecossistema – também ultrapassarão as fronteiras.

Alguns países lideram o caminho. Os governos escocês, irlandês e alemão têm estratégias de restauração de turfeiras. Depois de recuperar suas florestas tropicais,  a Costa Rica se comprometeu  em proteger 100 %  de suas áreas úmidas costeiras. Quase 70 barragens foram removidas dos rios dos EUA em 2020. A Indonésia está trazendo de volta os manguezais para a proteção costeira  e umedecendo novamente seus pântanos de turfa florestados.

Enquanto isso, nós da Wetlands International estamos trabalhando com governos africanos para proteger e  restaurar cerca de um milhão de hectares de manguezais. E o Banco Asiático de Desenvolvimento lançou uma Iniciativa Regional Flyway para proteger os pontos de paradas de aves aquáticas migratórias no leste da Ásia.

Salvaguardar e restaurar as áreas úmidas é a nossa última e melhor defesa contra as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. Esta ação, salvará espécies, preservará e limpará o abastecimento de água, melhorará a pesca, reviverá os ecossistemas, manterá o carbono fora do ar, evitará incêndios e protegerá muitas cidades de inundações, secas, tempestades e aumento do nível do mar.

Idealmente, o mundo precisa de uma Convenção de Áreas Úmidas mais poderosa. Mas, por enquanto, podemos progredir com coalizões de pessoas dispostas – governos, corporações e sociedade civil – que se comprometerão com metas para a proteção e restauração dessas superestrelas esquecidas da natureza.

Em Glasgow, em novembro passado, mais de cem nações se comprometeram a acabar com o desmatamento. No Dia Mundial das Áreas Úmidas, em abril, pedimos um esforço semelhante em Kunming, para que possamos mudar a maré para os lugares úmidos do mundo.